Cuidados de Saúde Primários e o colapso das urgências de pediatria

No dia 30 de outubro foi publicado no Jornal Público um artigo de opinião com o título “Urgências de Pediatria – porque estão em colapso? “Com a verdade me enganas”.

Neste artigo de opinião, que visava apurar as causas para o problema atual das urgência pediátricas, sobretudo no Hospital Garcia de Orta, o coletivo de Pediatras, responsáveis pela elaboração do texto, identificaram o funcionamento dos Cuidados de Saúde Primários como um dos fatores agravantes desta problemática indo, inclusive, mais além, apontando mesmo o trabalho dos médicos de família como uma das causas para a lotação dos serviços de urgência de pediatria.

No texto:

“Todos reconhecem que os médicos de Medicina Geral e Familiar (MGF) são profissionais competentes, mas a sua formação pediátrica consiste em dois meses, claramente insuficiente para dominarem com segurança todas as vertentes do crescimento normal e da avaliação da doença aguda e crónica. A qualidade individual de cada um desses médicos decorre em boa parte da experiência individual que vão acumulando ao longo da carreira, mas não de formação sólida.”

A USF-AN recorda que a formação de Pediatria durante o Internato médico de medicina geral e familiar (MGF) vai muito para além dos dois meses e que, inclusive, o Internato Médico de Pediatria engloba também um estágio nos Cuidados de Saúde Primários, tendo como tutores médicos Especialistas de MGF.

Ainda no texto:

“O exercício de funções com limitada formação ou creditação cria riscos, como recentemente se viu noutro caso mediático. É profundamente errado ignorar esse risco e esperar que um drama ocorra para fazer actos de contrição. Manda o senso e a boa gestão que os actos diagnósticos e terapêuticos sejam desempenhados por profissionais devidamente formados.”

Consideramos ser muito grave a utilização do “caso mediático” no artigo em questão e, sobretudo, a inclusão deste num parágrafo relativo ao trabalho dos médicos de família, sendo que nenhum membro desta especialidade se encontra envolvido no processo em curso.

Realçamos que o colégio da Especialidade de MGF nutre relações de parceria e partilha de formação com o colégio da Especialidade de Pediatria. Existe, sobretudo, uma relação de confiança e contínua formação bidirecional.

Não podemos deixar de dar o devido valor ao papel que os Cuidados de Saúde Primários têm no âmbito da Saúde Infantil-Juvenil, nomeadamente com o Plano Nacional de Vacinação e prestação de cuidados longitudinais, de vigilância e antecipatórios, bem como a educação para a saúde tão importantes no crescimento e desenvolvimento de uma criança.

A USF-AN lamenta as palavras proferidas pelos autores em questão, esperando que as mesmas não sejam partilhadas pelos restantes especialistas de Pediatria.

**Conheça a Carta aos Médicos Pediatras e de Medicina Geral e Familiar emitida pelo Colégio de Pediatria da Ordem dos Médicos.

A Direção da USF-AN

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