RECURSOS HUMANOS NA SAÚDE: a importância de valorizar o fator humano.

No contexto atual de mudança dos sistemas de saúde, as suas instituições estão hoje confrontadas com a necessidade de mudança do paradigma do seu modelo de prestação de cuidados, condicionada por vários fatores dos quais se destacam o envelhecimento populacional, a maior preferência do bem saúde em relação a outros bens, os fatores sócio-económicos e culturais, a mudança do padrão de morbi-mortalidade e sua complexidade, o aumento das doenças crónicas, a utilização e custo de novas tecnologias e o desenvolvimento das profissões da saúde.

Decorrentes desta mudança, os desafios que hoje se colocam aos profissionais de saúde são imensos, colocando à sua gestão um repto maior, face à necessidade do desenvolvimento contínuo das competências destes e à avultada rubrica orçamental que os mesmos representam no orçamento das instituições de saúde, que adquire maior acuidade no atual contexto de dificuldade crescente na manutenção da sustentabilidade financeira do nosso sistema de saúde, nomeadamente do SNS, pilar fundamental para saúde de todos nós.

No entanto, a gestão nesta área, tão sensível e importante para garantir a segurança e qualidade dos cuidados de saúde, deverá estar sempre condicionada ao respeito integral de três pressupostos fundamentais:

– o planeamento estratégico de recursos humanos, centrado nas necessidades dos cidadãos a curto, médio e longo prazo, constitui a única via para garantir a universalidade, a acessibilidade e a equidade dos cuidados de saúde;

– o capital humano constitui sempre o valor maior em qualquer organização, pelo que deverá ser permanentemente considerado. Sendo que, na saúde, deverá ser entendido como investimento em potenciais ganhos em saúde e não como um custo a ser minimizado;

– a governação clínica em todas as suas dimensões (formação; auditoria clínica, efetividade clínica, investigação e desenvolvimento, transparência e gestão do risco), inserida num modelo gestionário integrado (clínical  governance & corporate governance) constitui a melhor estratégia para garantir a efetiva e eficiente gestão de recursos humanos, face à tendência atual de desregulação laboral e profissional que vai assolando as organizações de saúde e que se traduz de forma mais visível na precariedade do emprego, redução da protecção social e do seu número de efetivos.

Centrando esta análise sob duas perspectivas, recursos humanos enquanto “pessoas que cuidam de pessoas” e enquanto “força de trabalho”, importa, de forma transversal, ressalvar que deverão ser sempre salvaguardadas as condições para garantir o permanente desenvolvimento das suas competências profissionais e humanas, face à contínua produção de conhecimento novo, cuja transferência para a prática clínica é ditame fundamental para melhorar continuamente a qualidade do seu desempenho, a sua satisfação pessoal e profissional, bem-estar e qualidade de vida.

Neste contexto, a formação e investigação são fundamentais ao desenvolvimento da “massa crítica” necessária à melhoria permanente da prática clínica e promoção dos ganhos em saúde, assim como, as medidas de protecção social, condições de trabalho, segurança, higiene e saúde no trabalho, democratização das relações de trabalho, sistema de remunerações justo e, mais importante, o respeito pela sua individualidade, enquanto pessoa única, integrada numa rede complexa de relações pessoais, profissionais, sociais e culturais e que deverá ser sempre considerado com base nos mais elementares princípios da ética e do humanismo, nomeadamente o respeito pela sua pessoalidade.

Em conformidade com esta individualidade única e irrepetível de cada um, pessoa que pensa, sente, vive e trabalha, dotado de personalidade exclusiva, constitui dever geral de qualquer organização de saúde, nomeadamente dos seus líderes, considerar cada um dos seus colaboradores, com as suas diferenças, especificidades e expectativas, como um elemento com capacidades próprias, humanas e profissionais, que deverão ser potenciadas, pelo respeito integral dos seus valores e princípios, no sentido da sua afirmação, para que este se sinta a “pessoa certa, no sítio certo”, condição para os ganhos de eficiência organizacional, motivação e satisfação profissional.

Sob as perspetivas de análise sobre os recursos humanos em saúde – a importância de valorizar o fator humano, considerando a motivação e satisfação profissionais como pressupostos fundamentais para o sucesso da organização e melhoria contínua da qualidade, deverão ser equacionadas todas as medidas promotoras destas, onde a participação ativa de todos, aos três níveis de gestão (estratégica, tática e operacional) é condição superior, assim como, a criação de uma cultura “amigável” que valorize o potencial humano e profissional de cada um, como já referido, o trabalho em equipa, baseado na complementaridade das profissões, respeitadas que sejam as especificidades e autonomias profissionais próprias, através do desenvolvimento de um sistema efetivo de práticas colaborativas e interdisciplinares, tão importante nos Cuidados de Saúde Primários, e as dotações seguras, hoje o aspecto mais critico a nível da gestão de recursos humanos na saúde, seja pela sua escassez ou pelas políticas inadequadas de empregabilidade.

Por último, prossigamos o caminho da personalização na gestão de recursos humanos, uma responsabilidade coletiva, a fim de que cada um de nós se sinta parte integrante e ativa na criação de valor para a organização em que nos inserimos, traduzido em maior satisfação dos cidadãos, famílias e comunidades de quem cuidamos.

Manuel Oliveira, Enf.º

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