O calibre dos tomates, o Sr. DiOr e a utopia

Já sei que hei-de arder na tua fogueira

Mas será sempre, sempre à minha maneira

(Xutos e Pontapés)

É difícil, nos tempos que correm, fazer as coisas à nossa maneira. Para quase todas as actividades que se possam imaginar, existe uma directiva comunitária, um qualquer regulamento ou uma legislação específica que nos fornece orientações, impõe regras ou define comportamentos a adoptar. Desde o calibre dos tomates à curvatura do pepino, das regras de trânsito ao imposto do carbono, do código penal ao dress code.

Se algumas regras são necessárias e mesmo imprescindíveis para que tudo funcione harmoniosamente, há imposições que mais parecem alucinações de burocratas com insónias.

Não será o caso da grelha DiOr, que é o resultado de muitas horas de reflexão e ponderação de várias mentes empenhadas na evolução da reforma dos Cuidados de Saúde Primários (CSP). Apesar disso, nalgumas situações, parece fazer jus ao homónimo Sr. Christian, famoso estilista da primeira metade do século XX, o qual “ao longo de sua carreira fez a própria tradução física dos sonhos e da fantasia humana através dos seus vestidos” (Wikipedia dixit).

A actividade fundamental das unidades de saúde integradas nos CSP é o atendimento dos cidadãos inscritos, tendo em vista a promoção da saúde e a prevenção e tratamento das doenças. No entanto, os seus profissionais vêm-se assoberbados com múltiplas tarefas administrativas e burocráticas, de construção de manuais e elaboração de actas infindáveis, que retiram tempo e paciência para o que verdadeiramente interessa.

Nesta era de informatização, há que diminuir a carga burocrática e não aumentá-la (abro um parêntesis apenas para dizer que não vou falar do tempo desperdiçado com programas informáticos mal construídos, pois além de todos os eventuais leitores já serem conhecedores desse facto, não é esse o objectivo deste artigo de opinião).

O Despacho n.º 3041/2017, que determinou a constituição do Grupo Técnico Nacional da Governação Clínica e de Saúde nos Cuidados de Saúde Primários, definiu como uma das áreas estratégicas de intervenção “… uma reflexão sobre o Diagnóstico de Desenvolvimento Organizacional nas USF (DIOR.USF), construindo um instrumento de referência que garanta de forma efetiva e simples a monitorização e melhoria da qualidade organizacional de todas as unidades funcionais dos Cuidados de Saúde Primários (CSP)”.

Sublinhei a palavra simples porque me parece ser essa a palavra-chave em todo este processo. Sei que o Grupo Técnico já produziu uma nova versão da grelha DiOr-CSP que ainda não é oficial, mas desejo que a mesma seja efectivamente simples de aplicar. Quando digo simples, é no sentido dos seus critérios não oferecerem dúvidas de interpretação e de serem de verificação simples, não obrigando à multiplicação de documentos, mas também que sejam mais dirigidos aos resultados do que aos processos.

Eu fiz parte de um dos dezanove Regimes Remuneratórios Experimentais (RRE) que tiveram início há quase vinte anos. Acredito, portanto, em utopias, como todos os que se aventuraram, então, nesse percurso que possibilitou a criação posterior das Unidades de Saúde Familiar. Apesar de todas as dificuldades que sempre foram surgindo e dos cabelos brancos que não deixam atraiçoar os anos que foram passando, continuo a acreditar na utopia de termos uns Cuidados de Saúde Primários de qualidade, com profissionais motivados e satisfeitos. Com a consciência, porém, que a utopia nunca é o destino, apenas o que nos faz caminhar, mas sempre, sempre à nossa maneira.

Dilermando Sobral

Médico de Família

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