Formação nos CSP, um olhar ex(in)terno

Pediram-me para contar o meu olhar externo sobre a formação nos Cuidados de Saúde Primários (CSP). Contudo, os quatro anos do meu olhar externo, absolutamente empírico, estão ainda muito aquém dos dezoito anos de olhar interno, em que tantas vezes me encontrei no papel de formando ou formador. Naturalmente, nestes quatro anos de aposentado apenas contactei com a formação promovida pela USF-AN.

Sem qualquer favor, reconheço que está bem longe da formação institucional com que éramos presenteados em 1995, exclusivamente preocupada em injectar conhecimentos nos formandos, conhecimentos que pouco ou nada ajudavam a resolver os problemas concretos com que os profissionais se defrontavam na sua actividade do dia-a-dia.

A formação que tem acontecido nos Encontros Nacionais das USF, e em especial mais recentemente no âmbito da Academia dos Cuidados de Saúde Primários (ACSP), tem-se pautado pela preocupação de produzir acções concretas de melhoria nas equipas. Para atingir esse objectivo os participantes são desafiados a apresentar projectos de aplicação dos conteúdos dos Cursos Avançados de Formação (CAF) nas suas unidades, envolvendo obrigatoriamente as respectivas equipas, de modo que as respectivas conclusões sejam por elas assumidas através da implementação ou reformulação de procedimentos.

 É certo que a formação institucional, promovida pelos organismos dirigentes dos CSP, nos últimos anos em que estive no activo foi, em parte, evoluindo nesse sentido, contemplando a execução de exercícios práticos de grupo relacionados com os conteúdos dos cursos. Mas no caso, os trabalhos circunscreviam-se à acção de formação, sem envolvimento das equipas e sem consequências para a sua acção.

Com a actual orientação parece-me francamente que a ACSP está a desenvolver-se no bom sentido, no sentido de que as acções de formação que promove não caiam em “saco roto” e tenham consequências de melhoria da prática das equipas. Mais não fora, aí está a excelência dos muitos projectos já apresentados para o atestar.

De todo o modo, a eficácia dos CAF é ainda baixa. A reduzida percentagem de participantes que desenvolvem projectos para aplicação nas equipas é um aspecto que preocupa os elementos que têm coordenado as actividades da ACSP.

Apesar dessa limitação, os participantes vêm reconhecendo no modelo oferecido pela ACSP um instrumento valioso de formação profissional, o que necessariamente se reflecte positivamente nas equipas.

Um aspecto importante desse modelo tem a ver com o facto de os profissionais que desenvolvem projectos assumirem depois o papel de “formadores” no seio das suas equipas, uma vez que são eles os depositários dos conhecimentos transmitidos nas acções de formação.

As possibilidades de formação interna, ministrada pelos próprios profissionais, é um recurso que as equipas devem utilizar ao máximo. Sem deixarem de exigir que os organismos dirigentes dos CSP promovam as acções de formação necessárias ao seu desenvolvimento, as equipas devem aproveitar os conhecimentos particulares de todos os seus elementos e criar hábitos de partilha através de acções de formação internas.

Quanto à ACSP há que perseverar no rumo seguido, procurando estratégias que se traduzam num maior número de projectos assumidos pelas equipas.

Uma hipótese em estudo consiste em privilegiar a inscrição de três elementos por equipa para facilitar a sempre trabalhosa tarefa de desenvolver um projecto de melhoria.

Uma via complementar entre duas edições da ACSP poderia ser a realização dos CAF nas próprias equipas, o que, sendo de mais difícil concretização, poderia resultar numa maior eficácia. Além do mais, esse modelo seria mais consentâneo com os princípios de trabalho em equipa e de gestão participativa que devem nortear as unidades funcionais dos CSP.

Finalmente, a avaliação.

Nos últimos anos da minha actividade surgiu uma novidade na avaliação da formação institucional: simultaneamente com a tradicional avaliação dos formadores pelos formandos exigia-se também a avaliação dos formandos.

Mas essa era ainda a avaliação de antigamente em linha com a formação de antigamente.

Da totalidade de conhecimentos ministrados, pretendia-se saber que quantidade cada formando tinha aprendido para depois os escalar: 5 valores, 11 valores, 16 valores…

Do meu ponto de vista, esse exercício é absolutamente irrelevante. Importante é avaliar as consequências práticas da formação. Idealmente, após o decurso de tempo adequado, os formandos deveriam apresentar um relatório com a descrição das acções efectivamente implementadas.

Quanto à ACSP, dado o modelo de formação adoptado, é possível fazer uma avaliação mais pertinente, ainda que não seja possível avaliar objectivamente as consequências da formação nas equipas.

Por exemplo, determinar a percentagem de formandos envolvidos em projectos, a média de projectos por CAF (resultados que para já não serão muito animadores) e ainda elaborar a estatística da avaliação qualitativa dos projectos apresentados.

Sendo apenas parcialmente ideal, este processo de avaliação é certamente muito mais efectivo do que pôr “as meninas e os meninos” a preencherem um inútil teste americano!

Octávio Fonseca

*O autor opta por não adotar o novo acordo ortográfico

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